Cultura

NAMORAR NA PRAÇA



A praça João Pessoa, assim denominada quando foi construída, sempre foi um entorno da caixa d' água que servia o núcleo urbano de Araçatuba, que não era grande. Nos escurinhos de seus bancos, namorei muito por lá em minha juventude. Pelos nomes dos lugares públicos, conhece-se a história da cidade. A praça João Pessoa é vizinha da Getúlio Vargas, participantes da Revolução d 1930. No ano de 2000, quando o Brasil comemorou 500 anos e Germínia Venturolli fazia uma administração pífia, o professor de inglês Artur Lopes aproveitou o vazio de poder e encabeçou um movimento com participação da iniciativa privada numa remodelação da praça, chamando-a a de Praça dos 500 anos. A partir daí, ela se transformou numa praça cultural. Fez parte da remodelação da praça a construção de uma bonita cantina que fora entregue à exploração de alguém sem a prefeitura fazer licitação. A presença do comércio na praça era ilegal. Era uma prática do clientelismo da política de distribuir a exploração dos espaços públicos a parentes e compadres de vereadores e prefeitos. Em 2009, com Cido Sério (PT) assumindo a prefeitura, me nomeando como secretário de Cultura, a praça João Pessoa (500 anos) passou para a minha jurisdição. O promotor público Albino Ferragini me chamou em seu gabinete para uma conversa. Ele queria saber por qual motivo eu não expulsava os comerciantes ocupantes de lugares públicos. Respondi-lhe: "Como a ocupação do espaço foi política, não há força que faça isso. Quem tem força para isso é o senhor que é promotor público, que não pôs ninguém". Declarou que veria isso, quando fiquei sabendo, a lei estava imperando. O promotor agiu. Foi recurso daqui, recurso dali, parece que a situação se regularizou. O Paulo, que tocava a cantina da praça foi avisado por mim: vá ajeitando um outro lugar, porque a sua saída daqui será iminente. Quem está mexendo é a Promotoria. Ele me dizia que tinha costas quentes. A cantina foi demolida, e logo em seguida Paulo morreu de desgosto num banco da praça. Parou a bicicleta, passando pela rua que circunda o local, sentou-se e teve um infarto. Atualmente, após uma reforma da iluminação pública, feita por Dilador Borges (PSD) a praça retornou à sua vocação cultural. A Vanessa Manarelli, nova secretária de Cultura, é dinâmica. O palco se chama Tom Jobim. Mas lá está faltando ela, a cantina. Precisava derrubar? Apenas fazer licitação. Da praça, conheci muitos amigos, nela fiz boas crônicas, levei muitos artistas forâneos, enquanto fui secretário muitos espetáculos artísticos foram apresentados. E também perturbei muito a vizinhança com o barulho. A PARTE BOA Araçatuba é interior, não é litorânea, mas a praça João Pessoa era minha Itapuã. Trabalhei muito nos eventos culturais, mas quando eles não eram da prefeitura, reunia amigos para rir e tomar uma cervejinha. A saudosa Helena (a Japa),como na foto, quase sempre estava comigo. Agora vou lá com a Fátima, acompanhado de uma caixa térmica carregada de cerveja. Sentados em nossas cadeiras na última fila dos bancos da plateia. A vida continua, e feliz, a velhice é uma bênção de Deus. Continuo namorando na praça João Pessoa, agora, bem iluminada. *Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna-RJ.


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